
Hoje me sinto gato, com a garganta arranhada por sua bola de pelos.
Mas que me lembre, não me lambi e não me banhei assim...
Mas a sensação continua. Tem algo que quer sair, e não sai.
Pigarreio... tusso... tento soltar. Mas não me quer largar esse sufoco...
Penso: gripe? Não... dor de garganta chegando? Também não...
O que pode ser? Penso em algo que me aflige...
Me aflige o tempo... ou a falta dele.
Me aflige o muito a ser feito e o pouco tempo pra tudo que é, em seu todo, tão importante.
Me aflige sim, mas nem tanto. Sei que é possível...
Me aflige mesmo estar muda e calada, de mãos atadas, sem tempo pra contemplar e então escrever.
Estou em crise de abstinência. Não química, mas dicionárica. Abstendo-me das palavras, ou melhor, de coloca-las para dançar. Adoro o seu baile.
Ontem li muito e muitas coisas. Castañeda, Garcia Márquez, mas isso não foi suficiente pra minha sede de palavras. Ou melhor, me encheu de mais palavras, aumentou minha sede...
A garganta me incomoda...
Agora sinto algo pior, sinto que algo quer sair. Pigarreio de novo. Parece que ta soltando... ponho a mão em frente a boca.
Tusso com força...
Olho pra mão... A letra A? E mais um T, um O, muitas, muitas letras, entrelaçadas, repetidas...
E a tosse continua, e as letras continuam saindo...
Se juntam, unidas em palavras, estrofes, linhas poéticas e não também...
A garganta subitamente melhora.
Na mão, frases, estórias, poemas...
O relógio avança...
O tempo é curto, mas a letra chama... o papel em branco reclama...
Então, em nome da garganta, vai recomeçar a dança...


